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Era uma vez um RIO DOCE!

  • 1 de mar. de 2016
  • 4 min de leitura


Quando volta e meia me pego pensando em minha infância, as primeiras imagens que me vem à memória são as intermináveis tardes de domingos logo após o almoço em família, na casa grande da fazenda.

Minha família de origem italiana tinha por tradição a reunião de seus membros, após a missa de domingo na igreja matriz rezada pelo padre Tomaz, amigo da família de longa data, o qual me lembra, muito embora não pertencendo à família, também se juntava a nós para essa celebração.

Como as missas terminassem às 11 horas, todos por volta das 11h30min começavam dirigir-se para o endereço certo, a casa sede da Fazenda Morro Grande. Lá iam juntar-se aos que mais cedo ainda já tinham feito sua obrigação religiosa. As mulheres da família começavam a preparar o almoço que já estava semi pronto, por Terezinha e Joaquina, duas senhoras de meia idade que há muito tempo trabalhavam na Fazenda Morro Grande com meus avós, a primeira viuvou muito cedo, ficou com um filho que logo se mudou para a capital, para continuar os estudos de direito, este era o sonho de Terezinha, não morrer antes de ver o filho doutor; Então sozinha, resolveu ficar na fazenda onde era tratada quase como um dos membros da família, pelo tempo que por lá andava.

Joaquina, essa um pouco mais velha, tinha família e morava na cidade, estava na Fazenda Morro Grande, havia uns 20 anos, parece que gostou do local, e foi ficando e quando percebeu já tinha passado todo esse tempo. As duas eram muito dedicadas, gostavam do que faziam, realizavam seus trabalhos com alegria, e muita atenção aos detalhes.

Como regra pré-estabelecida sem que autoridade alguma precisasse impô-la ou fazê-la cumprir, os grupos eram separados por sexo, faixa etária e interesses comuns, as mulheres ficavam a conversar horas sobre assuntos que somente a elas diziam respeito, homens, os assuntos eram dos mais variados possíveis, desde música de viola (assunto esse preferido do Tio João) até pescaria nos muitos rios da região que ainda naquela época era possível se fazer.

As crianças com idades variadas dividiam-se entre brincadeiras de roda, esconde-esconde e cabra-cega, e tantas outras próprias da idade.

Eu era da turma que adorava ir para beira de um rio que passava no outro lado da fazenda, depois da plantação de café, para chegar até lá era preciso utilizar de uma montaria que facilmente poderia se encontrada, desde que depois do passeio animal fosse alimentado e deixado no curral.

Lembro na primavera quando as primeiras flores do cafezal começavam a despontar, era muito lindo ver aquele cenário, eu e mais uns três primos, todos com idades variando entre nove e doze anos, seguíamos logo após o almoço para a beira do rio. Ali permanecíamos horas a fio, até que o sol já mostrava sinais que a noite não demoraria a chegar.

O rio não era muito largo, mas tinha um bom volume de água, que brotavam nas nascentes que ficavam na grande montanha na parte leste da fazenda, por isso lhe deram o nome de Morro Grande. Sua água era limpa onde se podia matar a sede bebendo com as mãos um gole d’água sem receio.

Uma das coisas que fazíamos na beira do rio era ficar olhando a variedade de peixes coloridos que subiam rio acima para a desova na época da piracema.

A recomendação que tínhamos dos adultos era para que não entrássemos no riacho após o almoço, que isso poderia nos dar uma congestão, todos levávamos a sério essa recomendação, ao ponto de nem mesmo tentarmos atravessar o riacho para a outra margem, com medo que a pequena arvore que servia de ponte se quebrasse com nosso peso.

Ficávamos encantados com as borboletas coloridas que existiam no local, as quais nos deram uma ideia de fazer uma coleção, ideia essa que foi logo esquecida, por nossa tia Malu professora da escola da cidade, nos advertir que isso não seria bom para o equilíbrio ecológico dos pequenos animais. Isso não ficou muito claro para nós, mas como vinha de um adulto e principalmente a tia Malu que era muito bem vista, por alfabetizar grande parte das crianças da cidade, acatamos sem mesmo por em pratica nossa ideia.

Assim a tarde ia embora, dando sinais de que nosso domingo estava para terminar, e nossa obrigação de voltar estava chegando, uma derradeira olhada para o rio e para todo aquele harmonioso ambiente que servia para várias espécies de pequenas vidas animal, ia ficando para trás.

Hoje quando volto à Fazenda Morro Grande, não tenho mais a alegria de ver as águas do rio, correndo pela montanha, uma grande mineradora se instalou no local e as águas do rio deixaram de correr alegremente.

Era uma vez um RIO DOCE!

Essa crônica eu escrevi em protesto ao descaso para com as pessoas que perderam seu único meio de sobre vivência, com a destruição da vida ao longo do RIO DOCE em Minas Gerais.


Nivan Gomes

Jornalista - MTb sub o número 0072604SP * Ministério do Emprego e Trabalho

Cronista Esportivo - ACEESP * ASSOCIAÇÃO DOS CRONISTAS ESPORTIVO DO ESTADO DE SÃO PAULO –

E-mail * nivan.gomes@yahoo.com.br


 
 
 

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