Vínculos e Conexões
- 1 de set. de 2016
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Uma coisa muito interessante: a tecnologia de forma geral tem colaborado sobremaneira para uma revolução que vai além da esfera profissional. Tem interferido nas relações humanas, sejam elas entre grupos de amigos, entre familiares,ou entre colaboradores.
Se por um lado, a chamada Revolução Tecnológica, que pode muito bem ser comparada à Revolução Industrial, que sacudiu o mundo, tem aproximado pessoas extinguindo a barreira da distância, eliminando muitos obstáculos e fronteiras, por outro lado tem aumentado a distância física de pessoas, inclusive dentro de uma mesma casa.
Algo absurdo de se imaginar, mas tem acontecido com frequência. Esse vírus, chamado tecnologia, tem tomado conta de todas as classes sociais e também de praticamente todas as faixas etárias. E as empresas, cada vez mais ávidas por consumidores, lançam produtos novos de forma constante, transformando, quase que de forma instantânea, um aparelho retirado da loja em quase obsoleto porque outro mais avançado já tem lançamento programado.

Se até em passado recente as pessoas geravam mais vínculos entre si, preocupando-se umas com as outras, em determinados grupos e na maioria das famílias, a tecnologia que facilita o contato tem gerado conexões.
E há uma diferença significativamente crucial nessa colocação.
Os vínculos de antigamente são aqueles que deixam marcas duradouras nos relacionamentos interpessoais, nas amizades, nos relacionamentos. Havia profundidade e sentimentos mais verdadeiros. As conexões atuais, embora gerem contato mais constante, são meros relacionamentos que podem ser feitos ou desfeitos na base de um toque, de um ligue ou desligue, ou ainda pelo simples fato de se poder ignorar um contato.
Os vínculos permitiam contato olho no olho, cara a cara e a impressão pessoal era mais presente nos relacionamentos de qualquer espécie. As conexões permitem a frivolidade, a frieza e a possibilidade do fingimento, da manipulação. Pode-se dizer facilmente que se importa com um assunto ou pessoa, quando na verdade, ao terminar o contato, simplesmente o que foi comentado é esquecido, deletado ou ignorado.
Não que a frieza não exista nos relacionamentos pessoais, mas ela é exponencialmente maior na era tecnológica.
Cria-se uma sociedade que se torna cada vez mais dependente e ávida de novos equipamentos e produtos, inclusive gerando certa competição em grupos da sociedade, como por exemplo, nas escolas, onde alunos competem para ver quem tem o melhor aparelho.
Lógico que a tecnologia tem facilitado a vida das pessoas de forma significativa e irreversível, mas o seu mau uso ou falta de uma educação social, inclusive a partir de casa, tem colaborado para que a sociedade caminhe para uma situação automata, dependente, insensível, mais individualista.
Interessante, por exemplo, a colocação do sociólogo polônes Zigmunt Baumann que define a época atual não como Pós-Modernidade, mas como “Modernidade Líquida” e é interessante acompanhar esse raciocínio:
“modernidade líquida é a época atual em que vivemos. É o conjunto de relações e instituições, além de sua lógica de operações, que se impõe e que dão base para a contemporaneidade. É uma época de liquidez, de fluidez, de volatilidade, de incerteza e insegurança. É nesta época que toda a fixidez e todos os referenciais morais da época anterior, denominada pelo autor como modernidade sólida, são retiradas de palco para dar espaço à lógica do agora, do consumo, do gozo e da artificialidade.”
De forma esplêndida e magistral, Baumann destaca a questão das conexões como sendo relações frágeis, que você pode desligar a qualquer momento, sem dor, remorso ou grandes perdas, sejam elas materiais ou principalmente emocionais. O Facebook é um grande exemplo disso: todos os dias essa rede de conexões permite que se percam e ganhem amigos aos montes sem grande significação. Situação totalmente contrária aos vínculos de passado recente, que geravam relações mais sólidas, consistentes, onde as perdas eram e são mais significativas, causam dor e, por outro lado, geram emoções mais verdadeiras.
O problema com o Pós-modernidade ou a Modernidade Líquida é que, sem necessidade, ela está excluindo os vínculos da sociedade em todas suas células. O grande segredo de todos é como educar e se autoeducar para encontrar um ponto de equilíbrio em que se permita a verdade nas relações, sem a superficialidade da tecnologia.
Donizetti de Souza é jornalista























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