Largar tudo e ser feliz
- 30 de dez. de 2016
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Largar tudo e ser feliz parece ser o mantra das novas gerações. Por outro lado, tem aqueles que dizem que largar tudo pra ser feliz está restringido a uma pequena parcela das pessoas, pois os seres humanos comuns, trabalhadores, pobres e pertencentes à minorias (que não são minorias) não podem fazer isso, que poucos podem fazer isso. Será que existe um meio termo? Será que tem como largar apenas quase tudo ou só um pouco do tudo? Mas tudo do quê se você não tiver nada? Talvez essa expressão “largar tudo e ser feliz” dê margem a variadas interpretações. Pra que cada um pense em largar tudo que tem pra ser feliz é preciso saber o que se tem. Parece óbvio, mas não é tanto assim. Tantas pessoas que se consideraram em uma situação economicamente estável nos últimos anos, co m emprego garantido, muitos desses com a famosa estabilidade pelo fato de trabalhar numa grande empresa ou ter um emprego público ou também pelos anos que estava em determinado emprego, foram pegos de surpresa e somam mais de 2 milhões de pessoas que perderam seus empregos com carteira assinada considerando desde Janeiro do ano passado. É preciso saber o que se tem. Você pode ter um emprego onde se trabalha para alguém e nada mais. Enquanto o seu colega tem esse mesmo emprego e mais 90 mil na conta de uma herança do avô ou de um dinheiro que seus pais juntaram desde o momento que ele veio para o mundo. O seu outro colega, que também está no mesmo emprego que você, não tem nada de bem material, nem nada dos pais, mas tem uma faculdade e dois cursos técnicos. Tem aquele colega que nem carro tem, você mesmo já o chamou de “mão de vaca” porque ele n&atild e;o costuma ir com a galera naquela balada onde se paga R$150,00 reais pra entrar e as pessoas consomem um dinheiro que daria pra pagar dois pares de tênis melhores do que o que ele usa todo dia pra ir trabalhar. Tem os seus colegas que tem filhos e tem os que não tem. Você tem? E se tiver é sempre bom lembrar quem foi que fez esse filho, porque tem muita gente por aí justificando tanta coisa pelo fato de ter filhos como se os filhos caíssem do céu sem nenhuma responsabilidade dos pais. Vamos falar a verdade, tem aquele amigo inteligente que parece que sempre faz a coisa certa na vida enquanto você ainda dá várias cabeçadas. Tem as diferenças de idade. O cara sair de um emprego com 20 anos é uma coisa, sair com 30 é outra e com 40, outra. E se ele sair do emprego com 40 pra entrar em outro ramo talvez tenha que abdicar de um salário para aceitar outro que, com sorte, d&aacut e; um terço do anterior. Quem topa? Muitos eu sei que topam e outros não. Quer dizer, é uma questão de escolher também, saber do que vai abrir mão e isso não só ao sair do seu emprego, mas muito antes disso. Muito antes disso, repito pra destacar que “largar tudo” pode não ser um ato assim tão de supetão. Pode não ser isso que a gente pensa da pessoa acordar, largar tudo pra trás e ir ser feliz. Quanto mais a pessoa se conhece, mais terá certeza ao protagonizar uma grande mudança em sua vida. Conhecer o que se tem, o que não tem, do que é capaz, suas qualidades e seus limites. Conhece a ti mesmo. Ah, mais uma vez caímos nessa máxima dos antigos sábios gregos. Interessante é o que uma enciclopédia grega diz sobre o significado de “Conhece a ti mesmo”. "O provérbio é aplicado àqueles que tentam ultrapassar o que são", ou ainda um aviso para não prestar atenção à opinião da multidão. Veja se isso não tem tudo a ver com nossas indagações. Nesse momento me arrepia escrever esse texto, lembro de alguns momentos que p assei na vida, mas não vou falar de mim. Não sou exemplo pra ninguém, o meu caminho é só meu. E se conhecer a ti mesmo significa não prestar atenção à opinião do mundo está certo que a minha opinião não serve para a sua vida assim como tantas não me serviram. Mas por falar nisso, preciso relembrar de alguns exemplos do que “não” fazer que encontrei pelo caminho que é só meu. Soube de um ou outro sujeito que pediram as contas na empresa em que trabalhávamos. Pegaram uma quantia de dinheiro ao sair da firma e investiram num negócio próprio. O negócio faliu e eles se arrependeram do que fizeram. Escrevo assim, no plural, porque é mais de um caso. Isso foi inteligente? Nem um pouco. Poderiam evitar? Sim. Sair com uma quantia pra apostar tudo num negócio não é largar tudo pra ser feliz, é pedir pra se dar mal. Se tivessem alguma noção do que estavam fazendo jamais iriam esperar lucro no início do negócio, nem iriam abrir negócio sem reservas, muito menos gastar todo o dinheiro numa só aposta. Pois bem, largar tudo e ser feliz não é pra todo mundo. Tinha um colega, lembro bem, dizia que nunca mais iria estudar. Já tinha estudado na escola e não gostava de estudar. Ele também dizia que queria ter um negócio próprio pra poder abrir a hora que quisesse e no dia que lhe desse na telha, iria pra praia curtir a vida. Esse colega saiu do emprego, entrou em outro, saiu, entrou em outro. Sua média de tempo era mais ou menos dois meses em cada emprego. Invejável, não? Entra, estressa, sai. Ele largou tudo diversas vezes, era isso que era pra fazer? Na hora que te enche o saco você sai? Nós, mortais que dependemos de nossos empregos aguentamos mais . Temos que aguentar. Um ano, cinco, dez, vinte. Lembro que ele zombou uma vez de mim porque falei que estava gastando quase todo o meu salário num curso. Cada um tem que saber o quanto aguenta nessa luta. Ele se deu bem? Parou com esse entra e sai de emprego no momento que o primeiro filho nasceu. Aí a vida mudou. Ele mudou sua vida de outra forma e ainda está num emprego que lhe deixa infeliz. Tudo tem um risco, mas até certo ponto você pode controlar esse risco. Deve saber até onde vai o seu limite e do que abre mão a partir de certas decisões. Também tem que estar consciente de quais são as suas possibilidades e o que pode fazer para ampliá-las. Conhece a ti mesmo. Cada um tem o seu tempo, sua realidade. Alguém que tem mais, pode criar diversas justificativas para não mudar de vida, os limites estarão muito mais na sua mente do que em suas condições, fará de tudo para continuar numa realidade que odeia e reclama todos os dias, mas não quer ser chamado de acomodado. Outros com condições adversas, vários obstáculos, uma realidade nada favorável, talvez se dê conta que se a mudança não partir de si poderá não haver mudança nunca. "O provérbio é aplicado àqueles que tentam ultrapassar o que são".

Denis Pinho Artista Visual denis.o.p@bol.com.br @denis.pinho (Instagram)























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